A tristeza de amar um jogo, mas jogá-lo te faz mal.

 

Como muitas pessoas pelo mundo, eu tenho lutado duramente contra a depressão por muito tempo. O sistema econômico e social em que vivemos nos desperta os mais diversos gatilhos para nos sentirmos tristes, fracassados, etc. E, pelo menos para mim, e tenho certeza que para muita gente, o videogame era uma válvula de escape para os fracassos da vida: a incapacidade de construir relacionamentos com outras pessoas, as derrotas, os baques de tristeza repentinas: isso tudo some enquanto você é agora é o herói de um mundo e tem que salvá-lo, ou simplesmente tem que encher um monte de zumbi de tiros.

O problema é quando determinados jogos (nem necessariamente games, jogos virtuais, mas jogos mesmo, de tabuleiro, de cartas, etc) fazem você se sentir mal. Causam os mesmos gatilhos que o sistema em que vivo me faz sentir. E o que me faz mas mais ainda é gostar desse tipo de jogos. Nesse post quero falar unicamente de mim, porque, embora ache que talvez muitas pessoas possam se identificar com esse sentimento, muitas outras não compartilhem dele.

Eu tenho um problema grave, por exemplo, com jogos competitivos. Eu adorei Street Fighter 6 quando saiu. Eu amo jogar o jogo de cartas Magic: The Gathering. Mas quando você joga esses jogos e sofre marés de derrotas, isso começa a me fazer mal. Mal de verdade. Isso foi algo que eu nunca consegui lidar, e não adianta me dizer “faça terapia para resolver isso” porque terapia infelizmente também é algo que não funciona comigo (e nem para 30% das pessoas, segundo o meu psiquiatra). E terapia também não deve ser visto como uma solução mágica que vai ajudar instantaneamente você a lidar com seus problemas.

Estou escrevendo esse post depois de ter sofrido pelo menos umas três derrotas seguidas jogando Magic Arena. E sofrer três derrotas seguidas me fez chorar, me fez ativar os gatilhos dos quais eu falo no primeiro parágrafo. Algo que pode parecer extremamente bobo para quem lê, mas jogos competitivos frequentemente fazem eu me sentir assim. “Caramba, não adianta, eu sou um fracasso mesmo, sou um ruim, tenho que comer alfafa, etc”.

            Cena que infelizmente eu vejo com mais frequência do que gostaria

Outro jogo que fez isso comigo foi Street Fighter 6. Nunca gostei muito de jogos de luta porque nunca fui muito bom neles. Street Fighter 6 melhorou um pouco isso ao adicionar um pouco de acessibilidade com os controles modernos. Ainda assim, quando eu sofria uma maré de derrotas, particularmente derrotas humilhantes ou injustas (quando eu estava perto de ganhar e perdia), os gatilhos voltavam a se ativar. Acabo de jogar outra partida no Magic Arena e perdi pura e simplesmente porque o jogo bugou, tive que reiniciar, e, ao reiniciar, vários turnos meus já haviam sido pulados. Eu lembro que, recentemente, fui em um pré-release (um mini-torneio de Magic que nem vale muita coisa), não ganhei nenhuma partida, cheguei em casa, fui jogar Street Fighter e tomei só surra. Fiquei bem deprimido naquele dia.

A minha vida inteira, lutei contra essa sensação de me sentir um fracasso em todas as áreas. Acho que ninguém explica isso melhor do que Mark Fisher, em Realismo Capitalista:

“No meu caso, a depressão sempre esteve conectada à convicção de que eu literalmente não prestava para nada. Passei a maior parte da minha vida, até os trinta anos, acreditando que nunca conseguiria ter uma profissão. [Adição do blogueiro: Tenho quase 32 e ainda sinto isso.] Aos vinte e poucos, alternava entre a pós-graduação, períodos de desemprego e empregos temporários. Em qualquer um desses casos, o sentimento era de que não me encaixava – na vida acadêmica, porque sentia que não era um pesquisador sério, apenas um diletante que tinha de alguma forma fraudado meu caminho até ali; no desemprego, porque não estava realmente desempregado como aqueles que buscavam trabalho honestamente, e sim um “vagabundo” se aproveitando do sistema; e em empregos temporários por sentir que era incompetente [...]. Mesmo na enfermaria psiquiátrica, sentia como se não estivesse realmente deprimido – era como se estivesse apenas simulando a condição para evitar o trabalho, ou, na lógica fernalmente paradoxal da depressão, simulando-a para esconder o fato de que eu era incapaz de trabalhar, e que não havia lugar para mim na sociedade.” (Mark Fisher: Realismo capitalista, Autonomia Literária, 2020, p. 138).

Esse parágrafo foi algo que me atingiu profundamente a primeira vez que li, tamanha foi a identificação com o sentimento (tirando a parte dos empregos temporários, porque nem esses eu tive, apenas "trabalhos gratuitos que dependem das pessoas para serem remunerados"), e me identifico até hoje, visto que estou no desemprego, com dificuldades de achar um emprego “de verdade” e sentindo que sou um “vagabundo” e que não presta para nada e nunca vai conseguir um emprego “de verdade”. E me atingiu mais ainda porque sei que Mark Fisher infelizmente acabou se suicidando.

Ou seja, sempre que eu começo a perder em um jogo, seja por azar, seja pela minha própria inabilidade no jogo, essa sensação de ser a pessoa que não presta para nada vai se ativando. E, claro, não é culpa do jogo, apesar de haver determinadas coisas nesse tipo de jogo, determinadas "gamificações" que pioram as coisas: o sistema de ranking, que faz você se sentir pior quanto mais você cai nele é um exemplo. Posso jogar partidas não ranqueadas no Magic Arena? Posso, e até prefiro. Mas não há a recompensa no fim do mês de pacotes extras para quem não tem ranking alto, o que prejudica a montagem de decks e ganhar mais cartas. Posso não jogar ranqueada no Street Fighter 6? Posso, mas não consigo encontrar oponentes e, de qualquer forma, sem o ranking, o sistema de pareamento pode acabar colocando você para lutar contra oponentes muito melhores, o que vai levar novamente às frustrações. Foi a mesma coisa que me fez abandonar outros jogos analógicos, como o xadrez. Mas, ainda assim, a culpa está na depressão, no modo com a minha cabeça começa a funcionar quando eu me frustro com esses jogos, e não nos jogos em si. Todos eles são ótimos jogos que eu gosto muito e que queria poder jogar sem sentir nada disso.

É claro que você nunca vai ser bom nesses jogos de primeira: são jogos que exigem treino e paciência, mas, quando os gatilhos são ativados durante os treinos, fica difícil continuar jogando, por mais que você goste do jogo. E é por isso também que nem tento entrar em outros jogos competitivos como Valorant (já tentei e era constantemente massacrado e sempre me sentia o inútil que afundava a equipe), League of Legends, Fifa (que já me frustra o suficiente no modo single-player) ou Runeterra.

Recentemente, tenho gostado do multiplayer de Exoprimal: Ele não tem sistema de ranque (apesar de ter pontuações, que não significam muito) e derrotas não têm muito significado ou perda, embora ainda possa ser frustrante. E, geralmente, quando jogo games multiplayer, prefiro os cooperativos, em que todos trabalham juntos com o mesmo objetivo, como Left 4 Dead ou Barotrauma.

E, claro, quem me conhece sabe da minha relação com jogos soulslike: São jogos que eu queria gostar, de verdade, porque têm aspectos que eu considero interessantes, apesar das zoeiras que faço no twitter. Mas o constante fracasso nesses jogos, as derrotas humilhantes e/ou injustas não me permitem experimentar esse tipo de jogo sem ativar esses gatilhos. Lembro que, a primeira vez que joguei Dark Souls 1, assim que eu fechei o jogo (o que não demorou muito), fui deitar completamente deprimido.


Alguns soulslikes (talvez você não considere algum dos exemplos soulslike, mas isso é irrelevante pra questão) possuem determinados sistemas que me permitem jogá-los e me divertir: gosto muito do recentemente lançado Wo Long (onde você pode invocar aliados para te ajudar, facilitando muito as fases e os chefes, além de ser muito fácil você montar a sua "build" e pode dar respec o quanto quiser sem custo) e Elden Ring, em que também há várias formas que o jogo te dá para facilitar as lutas (a invocação do espírito clone sendo, para mim, a melhor delas, mas os espíritos em geral já são uma grande ajuda.). E de qualquer forma, quando se morre em Elden Ring não se “recua” tanto no jogo quanto se recuava em Souls ou Bloodborne, que é uma das coisas que mais me frustrava: é relativamente fácil voltar ao lugar que você morreu, e as fogueiras ficam todas aos lados dos chefes, ao contrário das sagas anteriores. Também joguei Sekiro (com um mod que fazia o jogo ficar mais fácil) e consegui me divertir bastante (o que simplesmente destrói o argumento de que a dificuldade é parte integral do que torna esses jogos divertidos e que por isso não se deve adicionar opções de dificuldade/acessibilidade).

Eu invejo muito os streamers e amigos que tenho que conseguem perder nos jogos e não “tiltar” nem ficarem deprimidos, tristes, simplesmente aceitam numa boa e partem pra próxima. Eu queria muito ser assim, já tentei diferentes métodos para aceitar melhor as derrotas, mas infelizmente sem sucesso. Por esses motivos que eu frequentemente abandono o Magic Arena.

Por isso, em geral, prefiro jogos single-player, que não sejam muito difíceis, e principalmente RPG: Neles, eu sou o herói, sou eu que desço a porrada em todo mundo e nada nem ninguém pode me deter. Eu sou o herói, O CARA. Deuses, demônios, feras, inimigos, zé bonitinhos de cabelo prateado que ameacem destruir o mundo, nenhum deles pode ficar no meu caminho. Eu tenho plot armor!

Bom, esse era o desabafo que eu estava querendo fazer sobre jogos competitivos e difíceis em geral. E aí, qual a opinião de vocês? Se sentem da mesma forma? Tem alguma técnica para evitar ficar frustrado? Se sentem assim na vida real, mas por algum motivo não se sentem no jogo? Acham que a recompensa de “treinar e superar” é maior que a frustração de apanhar constantemente? Comentem e engajem aí!

E como sempre digo em todos os posts, por favor, não deixe de conhecer meu trabalho em outras redes. Como estou desempregado e faço esse blog com o intuito de um dia ele me ajudar a desenvolver e demonstrar minhas habilidades de escrita para conseguir um emprego na área dos games ou de esportes, quem quiser ajudar financeiramente o blog pode fazê-lo por pix ou se inscrevendo no nosso apoiase que foi reformulado com novas recompensas e descrição.

Deixe também dicas, sugestões ou críticas, visto que essa é minha primeira experiência com blogs!

Comentários

  1. Filipe (Arcanus Deckboxes)4 de agosto de 2023 às 17:18

    Que texto excelente Natan! Por jogar Magic Arena com certa frequência, eu compartilho contigo esse sentimento de que muitas vezes a frustração pode superar a diversão e a paixão pelo jogo. Baita reflexão, ansioso pelos próximos textos :)

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    Respostas
    1. Valeu, Filipe, quando eu faço aquele 1-3 no draft ou perco umas 3 seguidas fica difícil não querer desinstalar o Arena kkkk

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  2. Uau, eu sinto a mesma coisa com jogos muito difícies. Perder mexe bastante comigo.
    Eu comecei jogando Magic fisíco, e eu era um jogador esforçado, deixei de jogar por causa do tempo e da dedicação necessaria para valer a pena ter um deck, e jogar com ele, no caso estou namorando e prefiro dedicar meu tempo a minha mina do que jogando...

    Eu resumo o seu ótimo texto a uma coisa: às vezes o jogo vira trabalho, e tá na biblia, o trabalho é uma maldição.
    Logo, tem jogo que exige tanta dedicação que fica parecendo um trampo, ai cabe a mim escolher se vou me dedicar ou não.

    Por isso, estou aceitando e revendo meus hábitos, para mim, ficar puto com um jogo tem haver com aceitação e é um processo longo...

    Abraço!

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  3. Comentário acima: Anderson Alves

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