O FINAL DE CLAIR OBSCUR: EXPEDITION 33 – “A vida nos dá sempre escolhas difíceis”

 ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTERÁ SPOILERS DE TODO O JOGO CLAIR OBSCUR: EXPEDITION 33. ESTEJA DE SOBREAVISO ENTÃO QUE QUALQUER PARTE DO JOGO PODE SER DISCUTIDA NO TEXTO.

Também não vou entrar em detalhes “explicando” o jogo, este texto é voltado também para quem já jogou o jogo por inteiro.

 

Uma das coisas que mais discuti com outras pessoas no ano passado foi sobre o final do jogo Clair Obscur: Expedition 33. Foi um jogo que realmente achei fantástico e que mereceu ganhar o prêmio de Jogo do Ano. No entanto, o final é o que mais me dava paixão em discutir porque eu me conectei tanto com o jogo que ficava querendo debatê-lo a todo momento, e os dois finais antagônicos que o jogo proporciona (e dos quais eu sou um ferrenho defensor de um, embora ache ambos agridoces, e que não há realmente um final “feliz”) dão oportunidade para esse tipo de discussão.

A maioria das pessoas com quem falei parece preferir o final do Verso, e confesso que os argumentos me irritam um pouco, o que logo vou explicar: no final de Verso, a sua pintura e todos os seus habitantes são destruídos, e Maelle (ou Alicia) volta para o “mundo real”, por falta de uma expressão melhor.

E, para a grande maioria (pelo menos os com quem conversei), este parece ser o melhor final, pois consideram a pintura de Verso como uma “matrix”, em que as coisas não são reais “de verdade”, e portanto, esse final força Maelle a voltar para o “mundo real” e “encarar a realidade” do luto de Verso.

No entanto, eu sustento o argumento de que o mundo pintado É real, tão real quanto o mundo em que Alicia vivia antes de entrar na pintura. Por isso, eu acho, é que justamente começamos a jogar dentro da pintura e descobrimos toda a história depois. Afinal, se nada daquilo é real, para que ficar chocado e triste com a morte de Gustave? Ele era só um desenho, não era real. Para que se importar com as mortes de Lune, Sciel, Esquie, Monoco, e todos os habitantes de Lumière se nada daquilo é “real”? Para que se importar com o sofrimento do próprio Verso se ele mesmo não é real? Para que se importar com QUALQUER COISA daquele mundo?

Esse argumento de que o mundo pintado não é uma realidade me incomoda. Para mim, ele é uma realidade paralela, não um “mundo falso”. Com Verso, o criador do mundo, morto, deixando apenas um fragmento da sua alma que mantém esse mundo vivo, ele é livre para seguir o seu rumo sem as tentativas de mudá-lo que Aline, Renoir, Clea, e, mais tarde, a própria Maelle. São as interferências da família de Verso nesse mundo, em “comandá-lo” que criam os conflitos que interferem na “realidade” daquele mundo, visto que não podemos fazer o mesmo no “mundo real” (que é o que acontece também em Matrix, a Matrix, apesar de uma realidade paralela, é controlada por máquinas, não é um mundo que segue seu próprio rumo sem interferência externa).

No entanto, após se livrar de todas as pessoas que estavam interferindo com o mundo, a figura pintada de Verso pretende destruir a pintura, condenando todos os que vivem nela à morte simplesmente porque “ele não quer mais viver ali”, apesar de ter lutado contra todos os que queriam a mesma coisa que ele. Ele portanto faz isso de maneira extremamente manipuladora, enganando a própria irmã, seus aliados, mentindo, e até mesmo deixando Gustave morrer para que seus planos se concretizem no final.

Já Maelle quer manter a pintura por um motivo que parece egoísta, e talvez seja, mas que, em minha opinião apenas ela pode julgar. No “mundo real”, sua família está destroçada, sua irmã a maltrata (vemos em uma cena como Clea a trata mal e a culpa pela morte de Verso), ela tem o rosto queimado, ela não consegue falar (pois o fogo parece ter queimado sua garganta), ela vive com dor 24 horas por dia por conta das queimaduras e sua família tem que enfrentar uma guerra contra a guilda dos escritores. Enquanto na pintura, ela pode viver feliz em Lumière. Uma das frases que mais me afetou durante seu argumento com Verso foi uma frase que nem Verso conseguiu contestar:

 

“Voltar? Voltar para onde? Para aquela casca?! Aqui eu VIVO, lá fora eu só EXISTO”.

- Maelle

 

É um argumento que me tocou com força, porque constantemente me vem à cabeça que se eu pudesse viver em um mundo diferente, com pessoas diferentes, um mundo teoricamente “melhor”, sendo uma pessoa diferente, eu escolheria isso sem pensar duas vezes, deixando minha vida aqui para trás. E é uma escolha que ninguém, absolutamente ninguém além da própria pessoa, pode fazer por ela. Só ela sabe das suas dores, seu sofrimento, e do que ela quer deixar para trás. E, como eu disse, o próprio Verso não tem uma resposta para esse argumento, sua resposta acaba sendo uma frase genérica: “A vida nos força a fazer escolhas difíceis”, citando seu pai, Renoir. Ali foi o fim do argumento e o começo da luta entre o destino dos dois.

Portanto, eu estou mais inclinado para o final de Maelle, pois vejo aquele mundo como real, vejo a destruição da pintura como similar a um genocídio, pois mata todos os que viviam naquela realidade (inclusive os personagens com quem construímos relações durante todo o jogo), e mantém Maele em uma realidade onde ela pode ser feliz.

Mas, como eu disse, o final é agridoce, pois Maelle, ao meu ver, comete o erro de interferir no mundo ao invés de deixa-lo seguir seu curso, como eu disse mais acima. Cometeu o mesmo erro que o resto de sua família. Primeiro, ela não quis deixar a versão pintada de Verso morrer (não fica claro se isso destruiria a pintura, mas ao que parece não, pois o fragmento da alma de Verso continuaria nela) por conta da culpa que sente pela morte dele, visto que ele morreu protegendo-a. E, mais além, ela continua interferindo no mundo para tentar fazer dele o mais “feliz” possível, se tornando, basicamente, a Nova Artífice: Ela ressuscita Gustave e sua namorada, ressuscita até mesmo o bebê que Sciel perdeu na barriga na sua juventude, ressuscita o marido de Sciel, basicamente ela faz tudo para que pareça um mundo exatamente como ela quer ao invés de um mundo que segue seu próprio curso, e o jogo então mostra seu rosto como o rosto da “Artífice”, pois ao invés de se tornar uma membra desse novo mundo, ela se torna sua “deusa”, de certa forma. Esse, para mim, é o grande erro de Maelle e a parte amarga desse final.

No final de Verso, as pessoas veem as coisas como “mais feliz”, o que eu discordo, mesmo com essa parte amarga do final de Maelle. No final, vemos Alicia tendo uma visão dos seus amigos da pintura de Verso, claramente com saudades. Tanto ela quanto sua irmã abusiva Clea estão afastadas dos pais, que encaram o túmulo de Verso, e Clea abandona logo o local, presumidamente para continuar sua guerra contra a Guilda dos Escritores, enquanto Alicia também permanece sozinha separada dos pais, e presumidamente com todo o seu sofrimento físico e psicológico contínuo. Não consigo ver isso como feliz ou “uma superação do luto”, pois a questão aqui, pelo menos para Alicia, não é apenas o luto por Verso, mas ter que viver em um corpo que ela vê como uma casca e em um mundo infeliz, onde sua irmã é abusiva, e sua família trava uma guerra com outra Guilda, onde ela não tem amigos ou pessoas próximas além de seus pais.

Essas são as conclusões que tirei ao final do jogo, e acabo preferindo o final de Maelle não por achá-lo bom (como disse, para mim ambos são agridoces), mas por achar o final de Verso inaceitável. No entanto, eu fico feliz que isso fomente tanta discussão, pois significa que a história e os personagens do jogo realmente cativaram as pessoas que o jogaram, e o jogo realmente traz uma proposta e um debate muito criativo e feito de maneira bastante inteligente.

Comentem sobre qual final vocês preferem, sobre o que concordam e discordam, e nos vemos no próximo texto! E recomendem Expedition 33 para quem ainda não jogou!

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